ARTIGOS

A importância social, política e cultural dos Terreiros de Candomblé




                                                                        Jamille Sodré*


Candaces era como um ‘griot’, contava histórias para aldeias, tribos e estados [...] ela queria todo tempo, era passar para povo da aldeia o entendimento daquilo que eles viam ao seu redor [...] ela havia partido (deixado) grande tarefa (à Aldeia), caberia a todos tornar os homens e as mulheres conscientes de sua negritude”. Neia Daniel fala de Lélia Gonzáles

É necessário sermos como a “Candaces”, pois a importância da mobilização cultural, social e política dos Terreiros é muito forte e re-existe a um sistema que não nos privilegia enquanto cidadãos. Porém, não é à toa que muitos Terreiros têm a marca de ajudar a fundar bairros como, Engenho Velho da Federação, Vasco da Gama, Federação, São Gonçalo do Retiro, Mata Escura, Pirajá, Curuzu, Boca do Rio, dentre outros.
O renomado Professor Dr. Kabenguelê Munanga, tem uma definição desse fenômeno, ele afirma que “os Terreiros de Candomblé são um modelo ideológico transcultural”. Ou seja, os Terreiros preservam a sua cultura, respeitando as demais; interagindo de forma cultural e, porque não, social com a comunidade ao seu redor.
Um dos mecanismos que garantem essa “trasculturalidade” é o fato dos Terreiros possuírem pessoas engajadas pelas causas sociais, que formam as chamadas sociedades civis ou associações (termo corretamente jurídico). Organizações que foram criadas por volta da década de 30, na Bahia, tendo como uma das pioneiras, a Sociedade Cruz Santa do Opô Afonjá, fundada por Mãe Aninha, na época a Ialorixá do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Criada de forma oficial, ou não, eram bem atuantes no combate à discriminação e violência aos Terreiros de Candomblé. Tal iniciativa serviu como inspiração para muitas outras organizações não governamentais.
Nesse papel sócio, político e cultural dos Terreiros, lhe cabe educar a todos sobre negritude, cultura geral e, também, a conservação das tradições do Candomblé. Mais novos e mais velhos juntos, dando a vivacidade na missão da liderança religiosa de conduzir o Terreiro. Seminários, escolas, palestras, informativos, caminhadas a favor do respeito religioso, jornais, revistas, etc. Há uma grande preocupação de informar aos desinformados, e aos que a ignoram, o que é realmente nossa religião. A voz é nossa, temos grande compromisso de falar sobre nós, e nos representarmos. Quem convive na dinâmica de um Terreiro sabe a força e as dificuldades que geralmente têm sua comunidade ao redor.
Nossas lideranças religiosas têm a sensibilidade e a determinação de comandar as evoluções espirituais, sociais e culturais de seus fiéis. ”Quando se anda certo no Candomblé adquire-se tudo”, diz Mãe Bebé, Nengwa do Terreiro Tanuri Junsara. Estas lideranças são os alicerces dos seus templos, quanto mais surgem desafios mais mostram o quanto são altivas. Sendo implantada uma associação, a representação civil do Terreiro, é submetida à aprovação do mesmo, por tanto deve representá-lo dignamente.
O Estado terceiriza o seu papel de desenvolver ações de políticas públicas que garantam os direitos aos cidadãos, passando esse papel para ONG’s, Associações, sociedades e outras organizações sociais.
Os recursos adquiridos pela sociedade civil servem, não só ao Terreiro, mas também, para disponibilizar às comunidades ao redor, melhores condições de saúde e educação, além de transpor os elos religiosos entre ambos.
A visão de solidariedade e responsabilidade social não é nova para os Terreiros de Candomblé, pois um dos fundamentos do mesmo, é justamente, ajudar em todos os sentidos sem olhar a quem. São elaborados e desenvolvidos, também com outras parcerias, até mesmo governamentais, projetos de geração de renda e cidadania. Quando uma pessoa, guiada pelo “vento”, chega num Terreiro, encontra o alento e a orientação espiritual de que necessita. Cabe à organização civil, junto com o Terreiro, desenvolver trabalhos sócio, políticos e culturais, assim, continuando todo o legado que nossos antepassados, dos Terreiros de  Candomblé, sempre fizeram por Salvador, pela Bahia e pelo Brasil.




*Makota do Terreiro Tanuri Junsara, colaboradora da Direção Cultural da Amafro/MUNCAB, Coordenadora Sócio-Cultural da Associação Kunderenê e graduanda em Design.

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